quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Os fedaputas

Estava chegando a minha casa por volta das vinte e duas horas, a rua estava, como sempre, bem movimentada e eu muito apressada.
Enquanto procurava pela chave em minha bolsa observava com certa atenção a três crianças bem carentes que moram, praticamente, na rua. Eram dois meninos e uma menina, ela parecia ainda não ter completado os quatro anos de idade, os meninos aparentavam ter de seis a sete anos aproximadamente. Eles arrastavam a menina pela rua, enquanto ela chorava e falava:- Fedaputa, me solta! E quanto mais eles a arrastavam, mais ela reclamava. Não pude conter-me e comovida, tentei um diálogo com eles e disse:- Faz isso com ela não, ela é tão linda! Nesse mesmo instante eles a soltaram, mas ela insistiu chorando alto e gritando:- Fedaputa, fedaputa!
Foi ai que me aproximei e disse a ela:- Fala assim não, você é tão bonita! Ela gritava comigo e dizia:- Mas você é feia, você é feia! E eu disse:- Eu sei que sou feia, mas e daí? Você é linda, muito bonita mesmo!
Ainda com seu rostinho coberto por lágrimas ela sorriu meio sem jeito e perguntou:- Eu sou? E continuei falando:- Claro que é. Você é muito bonita mesmo! Ela respirou fundo. Fez um olhar de menina dengosa e disse:- É eu sou bonita! Os meninos continuavam ali parados olhando o desfecho da história e vendo-a sorrir, sorriram dócilmente. Ela saiu meio faceira falando baixinho:- Eu sou bonita! Eu sou bonita! E eles foram embora com ela já bem mais calmos. Senti meu coração um pouco mais leve, mas deu um nó na garganta e muita vontade de levá-la pra casa. Já havia esquecido a tal pressa e fiquei a olhar a rua. Lembrei de uma menina que há alguns anos passados estava sentada na porta de um bar com suas duas irmãs, já se aproximava da meia noite e era natal.
Seus olhos perdiam-se no céu olhando os fogos, pois eles eram de graça e também era apenas o que elas tinham de natal. Hoje a mais velha delas trabalha numa casa de prostituição já faz algum tempo. Á ceia de natal que levei pra elas naquela noite, não foi o bastante, eu poderia ter feito mais e não fiz. Neste momento estou pensando em fazer alguma coisa pela menina linda de hoje, mas ainda não sei o que farei. De uma coisa tenho certeza, não posso esperar muito. Elas crescem depressa demais e sempre haverá uma vaga nessas casas e pessoas dispostas a pagar barato por serviços tão difíceis.

“E pensar que sou obrigada a votar nesses fedaputas.”

Lili ribeiro


Hora de partir

Não suporto mais ferir-te
Nem a ti nem a mim
Essa indecisão
Não saber se irás ou não.

É sua, é minha a
Imprudência.
Pobre de nós que sabemos,
E não queremos;
Tomar a decisão.

Vidas que não voltam
Paradas e perdidas.
Num conflito e inércia,
Pra não sofrer.

Adiamos a hora final.
Eis aí a questão,
Deixar-te ou não.
Por que sofrer por ti?

Sei
Que perder-te é ganhar-me
Para que eu me veja.
Pois não mais sou eu mesma.
Tu dizes que és, mas não és.

Triste é a espera da partida
A minha ou a sua
Não sei.
Já não somos nós.

Por que juntos, já não somos um.
E os dias passam, viram semanas.
Elas viram meses, e eles,
Viram anos

E nós aqui estamos ainda pensando.
Se iremos ou não
Sabemos que um dia diremos adeus

Um adeus que já foi dito antes,
Bem antes dos anos,
Que continuam se passando.

Lili Ribeiro

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007





Negra Forte

Numa noite fria de inverno cortante
Em uma tapera deserta.
Com ventos de todos os lados
Invadindo todas as frestas, o frio cortava.
A pele negra da jovem solitária
Que tirou a talha do chão e a colocou sobre a mesa
Encheu a caneca de barro com água e bebeu.
Seu corpo franzino estava frágil.
Depois de mais um dia de muito trabalho
Sentou na cadeira de palha e sonhou
Com o dia que não mais seria preciso tanto trabalhar
Com o dia que seu trabalho enfim seria reconhecido
E não mais explorado por pessoas
Que a tinham como objeto de uso pessoal.
A noite era fria,
Mas era sua, para o seu descanso e repouso.
Até que surgisse o sol para acordá-la,
Pra ordenhar as vacas
E levar o leite fresco para sustentar os filhos de seu senhor e sua Ama;
Para que crescessem sadios e imponentes
E fossem também, Senhores de seus escravos na terra de um povo;
Que ainda sonhava com a liberdade!

Lili Ribeiro
31/05/07

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Mulher de Fases



Mulher de Fases

Eu sou como a lua
Uma mulher de fases.
Hoje ainda sou nova
Mas muitas vezes me sinto minguante
Muito embora seja crescente
Amanhã eu estarei com certeza
Cheia de amor
E de sentimentos bons
Vou em frente
Sempre em quarto crescente.

Lili Ribeiro
06/08/07

quarta-feira, 7 de novembro de 2007


despedida

Estou te deixando agora
Por raiva, ironia, medo ou solidão;
Mas estou te deixando.
Deixo para traz
Restos, buracos, trapos,
Farrapos de ilusões.
Levo comigo
Pedaços, laços partidos.
E sonhos
Os deixo jogados ao chão.
Porções, de ilusão.
Condição, nenhuma
Decisão acertada
Frustrações de montão.
Estou te deixando agora
Esta é a decisão,
Cansei de ser só
Estando ao seu lado.
Cansei de ser nada;
Nada pra você,
Indo ao seu encontro
Eu, indo para o nada.
Estou te deixando agora
Neste momento me desligo de ti,
De um passado que já não mais existe.
Estou te deixando agora
E indo ao meu encontro.

Lili Ribeiro

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Despedida


Despedida

Abri o armário, tirei minhas roupas e as coloquei na mala.
Depois sentei e chorei
Dói a partida, mas sei que doerá ainda mais.
Se eu desistir.

Lili Ribeiro

Sonho da Minha Alma


SONHO DA MINHA ALMA

Sinto minha alma tranqüila;
Como se flutuasse em cima de cristais,
Cobertos por águas limpas;
E num vôo marítimo,
Vou por entre corais dourados, algas verdes e transparentes,
Que balançam suavemente acariciando meu ser.
Talvez você não possa ver nem ouvir o que sinto;
Mas é bom demais sentir que posso fluir,
Entre corais e estrelas do mar;
Embora saiba que os tubarões tentem me devorar.
Vou me esquivando,
Deslizando entre as ondas e algas macias,
Que deixam transparecer finos raios de sol.
E vou por aí.
Quando à noite chega deixo que os tubarões,
Vejam em meus olhos os reflexos da lua,
E perplexos param comovidos,
Com os mistérios ocultos,
Entre o céu, à lua, o mar e eu.
É bom saber que sou um ser único
Tão diferente dos outros, que posso sentir essa emoção,
Mesmo  sem mergulhar.
Muitos mergulham e nem notam
Que ali existem outros seres
Que simplesmente bailam entre cristais corais e algas.
Mesmo que imaginários,
Assim como a minha alma sonha com a liberdade,
Para alcançar o infinito.
É assim, a alma de um poeta.

Lili Ribeiro