sexta-feira, 24 de julho de 2026

Estrela menina


Estrela menina

Um punhado de estrelas saltitantes enfeita o céu
Um brilho suave burlando a noite
E vim buscar as uvas os doces os chocolates.

Da vida só o prazer e não mais a dor
Um hino suave, uma poesia cantada
Um charme a mais no meu andar de menina madura.

Sou forte, sou lua sou menina e as vezes me perco pelas ruas.
Hora de voltar... Pra que?
Sou assim.

Um pouco levada
Pelos poetas, invejada.
Sorriso farto, vestido largo... Não rejeito um afago
Mas nada que seja exagerado.

Sou menina ainda.
Nada de compromisso, por enquanto só os suspiros.
E se um dia sair da adolescência
Que seja pra ser mulher
Nunca uma coisa qualquer como a maioria dos homens querem.

Ah! Se o tempo parasse e de novo eu voltasse seria pra rir e nunca mais chorar.
Hoje sou assim, facho de luz, estrela assanhada e saltitante
Perdida nesse imenso céu.

Com meu brilho suave vou burlando à noite
Cantando a vida e celebrando a liberdade.
Liberdade! Quanto te quero de verdade.
Lili Ribeiro



FUGA

Depois da chuva, o sol desponta no horizonte.
A calmaria de uma tímida manhã
É interrompida por tiros ensurdecedores
Disparados por alguns homens
De dentro de um carro
Que passou em alta velocidade.
Pânico a seguir de fuga;
Encostando-me em um muro, ando apressada,
Tentando não ser vista.
De repente a calçada parece menor
Sinto-me espremida pelos muros
Ando rápido sem olhar para trás;
A rua se fecha em túnel.
Parece não haver saída
Olhando para o alto tento ver o céu,
Mas que céu? Não há céu!
Vejo apenas uma cavidade escura
Coberta por um manto negro
E sem opção me envolvo neste manto
Tentado me esconder
Mas, me esconder de que?
Se nem os tiros ouço mais.
E como se mágica fosse
O manto negro se abre
E me vejo em meio a um fio de claridade
Num instante um pesadelo
Que em sonho se transforma
E parece real.
Uma nova terra surge
Uma densa floresta em meio á montanha,
Posso ver e sentir o cheiro da terra úmida
Pela chuva mansa que cai suavemente;
Levo meu olhar ao longe
Mas pouco posso ver
Pois as árvores
Começam a se esconder
Na bruma que se aproxima.
Ando nas trilhas encontradas
Que não me levam a lugar algum
E cansada me ponho a reclamar.
Depois de muito andar cheguei a uma casa
Que mais parecia ter saído
De um conto de fadas
Tão acolhedora e quente
Com móveis antigos e mesa de cristal.
E ando por toda casa, procurando à saída.
E ainda sem paciência
Continuo a reclamar.
Uma voz mansa me chama;
Parecendo fada de tão bonita à senhora.
Com um gesto feito
Com indicador na frente da boca
Pede para eu me calar
Oferece-me bolinhos de arroz
E caminha ao meu lado em silêncio.
Já não reclamo nem murmuro,
Apenas ouço o silêncio daquele lugar;
E cansada de procurar a saída
Eis que surge um senhor
De barba e cabelos brancos;
E mais calma posso admirar
O sorriso doce de um ancião,
Que calmamente estende-me a mão,
Anunciando à saída.
E logo vejo a minha frente
Uma porta frágil
Com vidraças limpas
Generosamente aberta.
A bruma continua
Mas já posso ver à saída
E num sonho perfumado
Subo a montanha;
Do alto,
Avisto o mar, a cidade ao longe,
Ainda sigo a trilha,
Agora coberta
Por pétalas de rosas vermelhas
Ainda não está bem claro
Não vejo o mar tão azul
Mas, no horizonte já está brotando o sol
E logo um arco-íris começa a surgir.

Lili Ribeiro

eu


ilusão


A Mais Pura Ilusão

Semeada ao chão socado, cansado e infértil.
Qual pedra no meio do oceano
Que dura permanece inerte
Mesmo assim 

 Recebe a maresia fresca.
Que vem do mar.
Tal qual é o amor que tenho por ti
Que jorra frescor em brisas

Acariciando o seu coração
Com as mais macias mãos
Feito plumas ao vento
Pois tu não as vês nem as sente

Pobre de ti
Que ao acaso se derrama feito sombra em minha vida
Pois não o terei mais como coisa real ou irreal
Jamais voltarei a vê-lo como coisa alguma

Quanto mais merecedor do amor
Que farto te dou.
Ignoras um sonho
Imprudente criança

Ao acordares não estarei mais em seu mundo.
E enlutado chorarás
A perda irreparável do ser que te ama
E soma-te a tudo que é belo

Mas, hoje chegou a tua hora final
Tarde demais
As pedras não amam
Não sofrem não tem sede nem fome

Afogadas ao mar
Aniquiladas ao sol
Não me importo em que estado estarás
Dentro em pouco
Sinto,

Me liberto de ti.

Lili Ribeiro

tarde ocre



Tarde Ocre

Aqui hoje está um tanto nostálgico.

Caiu uma bela chuva, a tarde está ocre

e eu estou ouvindo a grande música,

sonata ao luar.
As flores agradecem aos céus
Pela fresca chuva que as banhou!
Tenho ao longe
Um pôr- do- sol meio alaranjado
Que parece ainda molhado
Pela chuva que caiu!
Um sol meio fosco
Ainda sem jeito
Parecendo ter preguiça para acontecer
Da minha janela contemplo e vejo
Bucólicas árvores a sorrir
Ainda fresquinhas pelas gotas de chuva
Que nelas caíram!
Mais uma vez um milagre aconteceu
Nesses tempos de guerra
A paz aqui
Ainda posso ver
Nostálgica tarde, porém feliz.
Posso ainda pensar em uma noite de sono tranqüilo!
A felicidade ainda mora aqui!


Lili Ribeiro






segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

Anna Beatriz

Anna Beatriz

A namoradinha da família
Nana neném a todo instante
Nascida nesta casa
A nossa vida encantou

Belíssima,
E charmosinha
Aninha
Toda é prosa
Risonha e rosinha
Inquieta e gulosinha
Zangadinha, mas gostosinha!

Lili Ribeiro

05/06/06

Análise





Já não somos mais crianças


e a inocência não nos acompanha.


Labirintos obscuros e tramas.


Ainda nos perseguem.



Das brincadeiras de crianças


Restam poucas lembranças.


Tranças, bonecas, as bolinhas de gudes...


Goma de mascar, bala Juquinha...


Juro! Queria que o tempo voltasse.



E o que tenho?


O que aprendi com o futuro já vivido?


Não sei. Não sei!



Os dias continuam passando


E com o tempo


Somo as horas mortas que não voltam.



Penso, repenso e nada!


Nada de novo se apresenta.



Ansiedade me vem.


afasto-me da vida


mas ela chega-me em breves lembranças


Enfumaçadas nuances...



O tempo. Senhor da razão.


Será?


“Alzheimer” um vazio...


A solidão...


que segue apagando a


-vida-


E do passado


Certo ou errado.


Quem se importa?


A ninguém interessa.



A felicidade


Hoje é só um engano.


Dela, nem saudade.



Lili Ribeiro






A Vida em Preto e Branco

Todo dia acontece sempre igual: não tem magia, não tem sonhos, apenas o amanhecer e um dia inteiro pra sofrer, chorar, chorar e calar.
De um lado a outro, pedindo, andando, sentando, levantando e chorando. - Não. Hoje não. Não tenho!
E um outro, nem resposta. Desviam seus olhos e atravessam a rua, mas lá também tem outro. Desviam-se, passam bem longe.
De algum lugar alguém os observa com olhos de ambição, tomando deles o que não conseguiram 
- Pega essa criança, vai pra outra esquina. A resposta é vazia:
- Mas, lá já estive e nada consegui! E novamente a ordem:
- Volta, você tem que conseguir! 
Com uma camiseta furada e chinelos gastos, arrasta uma criança despenteada pela mão. Mão da mãe que mora nas ruas e não pode dar-lhe nem o pão.
“Mãe e filhas são conduzidas por um inescrupuloso homem que as leva de um lado á outro e ao findar o dia, tira quase tudo do quase nada que elas ganharam”.
Mais uma vez à noite chega. Por companhia, apenas seus anêmicos vizinhos, que juntos, moram sozinhos a margem da estrada. Dormem ao relento fazendo dos jornais, seus lençóis; embriagados, até os pequenos. E a cola é pouca pra tantos que a cheiram, embriagam seus cérebros pra não sentirem fome nem o frio que os consomem.
Pra não dizer que tudo é tristeza, pode-se acordar mais cedo ou não dormir. podem ver a aurora surgir. Trazendo a cada dia um espetáculo novo quase sempre carminado nas ruas mortas das grandes cidades.
Mais um dia começa, e com ele começa também a corrida da fome e a luta pelo ópio pra entorpecer à mente e morrer lentamente.
A única vantagem que eles têm é ver um pôr- do- sol diferente a cada entardecer e o raiar de um novo dia, contemplado assim o amanhecer, sempre pela aurora que os visita.
Mas, de que adianta?
Eles não sabem fazer poesia!

Lili Ribeiro

Cigana


Andar nas trilhas
Colher flores do campo
juro!
Queria novamente correr por lá.
Sentir o vento batendo em meu rosto
Ser menina feito moça
E encantada com a vida tecer amores.

Mas o tempo não para e parar pra pensar
Nem pensar.
Ficou distante esse tempo.
Um ano a mais e muitos outros ficaram para trás.

Tropeço nas peças que a vida me trouxe.
Juro!
Queria que o tempo voltasse
E que de novo encontrasse
aquela menina de sonho encantado
de cabelos encaracolados
com cheiro de relva
e poeira nos pés.

Ao olhar para o céu
sinto um pouquinho de medo do tempo que me resta a percorrer
Mas tudo hoje é tão rápido se não prestar atenção, não sentirei a chegada.
ou já cheguei?

Lili Ribeiro

sábado, 6 de fevereiro de 2016

cintilantes


cintilantes





feito nuvens


sobrepõem meus dias


antes alegres, agora tristes.


fadas passeiam nuas pelos ventos e colhem centenas de estrelas


que fatiadas cintilam a vida.


paradoxal


entre a nuvem e o sol


há neve.






pulverizado de cristais


passeiam lentamente num espaço negro


túneis, vidas escuras


viajando para sempre entre as tempestades celestiais


eu


fada feito bruxa


vislumbro um dia atemporal


em noites tingidas de cinzas em nuances


e nas manhãs


pardais invadem o céu






trazendo esperança em seu canto triste


é assim, de onde nada espero


brota vida e esconde a dor.


Lili Ribeiro Leão.


27/02/2012




segunda-feira, 5 de maio de 2014

Ás águas


                                                            Águas

As águas correm rio abaixo suavemente

Levando uma linda canção

Com o cheiro agradável

Das ervas que margeiam seu leito

À brisa envolve toda a relva

E por entre as ramagens passa um fino raio de sol

Que num mergulho invasor

Penetra no oculto do seu fluir

Acordando as delicadas criaturas

E colorindo os pequenos seres viventes

Daquele lugar

O som do silêncio se confunde

Com a calmaria que envolve aquela terra.

Terra e água,

Que vida tem e que vida dá.

Sem a água não há vida

Não há terra;

E não haverá história pra contar.

 

                            Lili Ribeiro        

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

jóia do tempo


Joia do tempo

 
 
 
Nascemos cobertos de carinhos e logo estamos sozinhos.

Mas, aos poucos encontramos vidas que se somam as nossas vida.

Andamos por muitos lugares

Passamos por várias pontes que nos ligam e nos afastam.

 

Atravessamos mares, encontramos amores, ou até mesmo, o amor.

Alguém para multiplicar e receber o que conquistamos

Somos assim, seres crescentes, virtuosos e carentes.

 

Cruzamos o céu, escalamos montanhas... E quantas montanhas!!!

Mass à vida, é assim mesmo

Sempre nos trazendo surpresas, horas boas, horas más.

Mas, pouco a pouco nos afastamos do nosso lugar de origem

e começamos a somar lembranças.

Lacunas que nos deixam; os nossos entes...!

 

Então conhecemos à despedida, e as lágrimas banham os nossos olhos.

Com força que arrancamos de dentro de nós

de onde nem sabíamos que existiam.

Lutamos contra a dor, até vencê-la.

 

E saímos, casamos, construímos, separamos, recasamos...

tantas alegrias e também, tantos desencontros.

Mas nos vem à esperança novamente, quando eles chegam.

Os nossos netos, que benção!

Parece que à vida toma novo rumo e ganhamos novas forças.


 

Então, é hora de procurarmos os amigos.

Mas, onde eles estão?

Passamos tanto tempo ocupados com nossas vidas e nem notamos

Que muitos deles também se foram.

Sabíamos sim, que eles estavam indo, mas sempre tínhamos algo a fazer

E mal fazíamos pequenas visitas.

 

Que pena! O tempo passou tão depressa...

Já não encontramos nossos amigos.

Muitos moram com os filhos

Outros mudaram de cidade ou até mesmo de país.

 

E aquela música que tanto ouvíamos na adolescência?

Tornou-se brega demais e só a ouvimos baixinho.

Nosso vizinho é muito jovem e não entenderia...

Como alguém pode ainda gostar de ouvir isso?

O jornal, a TV, tudo é tão diferente...

 

Hoje quero sair sozinha, vou ao jardim e depois caminhar rumo ao horizonte

Quero olhar para o céu visitar as estrelas e se possível colher uma delas

Ofertá-la a mim mesma, pois sou jóia do tempo

Enriquecida de amor e saudade
E com tudo, não embruteci.

 

Lili Ribeiro-13-07-2011

segunda-feira, 23 de julho de 2012


Conversa de amigas

Ela chegou de mansinho e disse -vamos amassar?

-E eu respondi - vamos sim.

-Então vamos para a cama?

-Claro, me da um abraço

E juntas rolamos para todos os lados da cama e depois cansadas ficamos abraçadas por algum tempo. Logo depois o silêncio foi rompido com aquela voz suave.

-Eu estava com muitas saudades de você.

-Eu também estava, aliás, acho você vem pouco aqui.

-Eu gosto muito dessa casa e de você também. Sabe o que eu tava pensando?

-Não. Conta pra mim.

-É que o Gabriel já é pré- adolescente, eu sou criança e a Camila ainda é um bebê.

-E então...

-O Gabriel, logo vai ser adolescente e eu vou ser pré-adolescente e a Camila vai estar grandinha.

  isso mesmo, as crianças tem que crescer.

-Mas, depois, Gabriel  vai ser jovem e eu adolescente e a Camila pé-adolescente.

É verdade. E eu?

-Você vai ficar velhinha e depois vai pro céu.  Mas vovó, quando você for pro céu, vai de calça jeans, porque eu vou fazer um bilhete e colocar no seu bolso pra você nunca esquecer de mim.

Eu escondi a lágrima que brotou em meus olhos e com a voz um tanto embargada disse: Eu não sei quem vai me vestir para eu ir para o céu e talvez não me vistam numa calça jeans, mas isso não é problema, se eu não estiver vestida num jeans, você coloca o bilhete na minha mão e se você esquecer de colocar o bilhete na minha mão, não faz mal, de qualquer forma eu jamais esquecerei de você.

-Ta bom vovó.

Ficamos abraçadas por mais alguns minutos e depois ela adormeceu tranquila.

Lili Ribeiro Leão

  28/04/20012


quinta-feira, 20 de novembro de 2008


Meu porto

Deixa que eu pouse
Em seus ombros
Pois sou andorinha
Perdida do bando

Deixa que eu navegue
Em teus mares
Pois sou fragata
Sem capitão

Deixa que o tempo passe
E que eu fique assim...
-ao teu lado-
Sussurre em meus ouvidos
Palavras jamais destiladas

Deixa que eu sonhe
Os seus sonhos
Deixa que me ancore
Em seu porto.

Canta-me a musica dos deuses
ou
A valsa dos amores.

Deixa que eu dance
Em seus campos
Feito folha solta
Que baila
Levada pelo vento.

Serei para ti
Bailarina.

Que quão bela dançarei
A valsa do cisne branco
E a valsa do cisne negro
Dar-te-ei morada
Em meu coração

Onde habitas há muito e não sabes...

Lili Ribeiro






quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Ao cair da tarde


Segredos

Ao cair da tarde
vem às tristezas e saudades.
Lembro-me dos dias felizes.
Iguais aqueles
Só mesmo em meus pensamentos tive.

Belas manhãs de outono
-tivemos-

Caminhos percorridos por intensa magia.
Um sonho
uma dor
e o amor
nascendo entre nós dois.

Os pequenos seres daquele lago
Agitavam-se.
Parecia fazer fita só pra nós.

E na cachoeira
água fresca descia daquela mata.
Refrescava os nossos corpos
com gotas que trazidas pelo vento
se faziam em brisas e notas soltas pelo ar.

No sussurrar das águas
musicalidade ímpar a nos encantar.

Tremores nas mãos
tropeços nos pés.
E no entrelaçar das nossas línguas
-beijos que ardiam-

deixavam nossos corpos
implorando um ao outro.
Desejo pleno
e mãos que passeavam por todo meu corpo
sem pedir licença.

Por testemunhas
O silencio
e o um sutil raio de sol
que atravessava as ramagens
e os fortes galhos
das grandes árvores.
A nos sondar.

Lili Ribeiro



Namorada do Vento

Sou eu a menina que andava descalça nas ruas calçadas daquela cidade. Foi a mim, que você esbofeteou quando me deu doces em troca de carinhos e os versos que não ouvi de ninguém choram sozinhos na beira da estrada esperando que eu os ouça. Jamais minhas lágrimas secaram, pois ainda lembro das tuas mãos acenando-me, ora chamando, ora dizendo:- vai! E eu sempre ia. Nunca sabia para onde ir, mas sempre chegava a algum lugar. Sempre um lugar que não gostaria de estar. Travo uma guerra a cada dia dentro de mim, e assim vou rompendo as barreiras que tu fincaste em meus caminhos. Pobre menina sem teto, sem chão. No cais a vida, que sem vida, morria!
Sou por sorte andarilho namorada dos ventos. Nos meus caminhos ainda encontro troncos e sinto o vento, gemendo. Meu fiel companheiro ainda, de há muitos tempos. Lembrança de muitas horas que me vi semeando sonhos, mesmo quando não os tinha, pois eles brotavam de dentro do meu âmago sofrido. Hoje ainda sou menina e namoro em cada esquina, o vento, pois este o tempo não me toma e não me leva nem me foge a cama.
Sou eu hoje ainda, a menina descalça que anda nas ruas calçadas daquela cidade. Onde você passa me acena e me deixa alguns trocados, sangrando!


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Lili Ribeiro

04/06/08

segunda-feira, 10 de março de 2008

Escuta


Escuta
Entra!

Está aberta a porta
Se achegue se ajeite.
Sirvo-te um chá quente
E lá fora o vento, serpente.
Gemendo.
Não peço pra que fiques
Nem que te vás
Peço apenas que entendas
Que o tempo não para
E enquanto dormes tuas cãs
Tornam-se cada vez mais brancas
E o chão que tu pisasMais tempo te agüenta
Teus passos tão firmes se tornarão lentos...
Pensas em acalanto, num canto, num ombro.
E o tempo a teu mando
Enganando-te
A vida torna-se cada vez mais longe
E os anos pequenos vão ficando.
A noite é cada vez mais breve
E o sono sempre leveE breves são teus dias
Que te perdes nas estradas
A procura do que não é teu
Entra, senta!
Toma mais um gole de paciência...
Olha as precisas mãos
Que tu precisas nas bengalas te apoiar
Em quantas em sã consciência ou não
Encostaste
Qual tronco grosso e forte
Em cima de rochas
Que tentavas mostra-las,
Areias.
Senta, é cedo ainda!
Seus pés estão firmes,
Suas pernas agüentam
Bebe mais um gole da”aguardente”
Que deste aos teus parentes
Teus entes, tua gente!
E nela te banhas e relaxas,
Pois ainda precisas tomar um cálice do veneno
Que ofereces ao povo.
Embriagadas almas sedentas.
Pare!
Não bebas mais!
Esquece a taça, o vinho acabou.
Seria esse o teu gole final
Mas a morte chegou!

Lili Ribeiro

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008


Canção do Vento

Se pensar num revolto mar
Saberei que jamais posso esperar
Pois as águas sobem e descem
As marés que rochas banham
Mar adentra noite a fora
Os anjos que choram já não oram
Soldados armados imploram
Que vão embora
Ainda não sabemos os porquês
Mas são vidas que chegam aos mares
Nos navios, turbulência e morte.
Faz guerra e guerra forte
Nos trancos sofrendo as baixas
E as flores pra quem são?
Se nem mais vidas têm!
Os anjos não amam a morte
E cansados dormem
Os piratas das almas não sofrem
Afora vento e noite.
Nas mãos deles,
Açoite.
De areias, a casa é dos ventos.
E ao acaso ele canta a canção do amanhã
Que não chegará
Esconde um castelo a beira mar
Esperando as pobres vidas
Quando o navio atracar
E no horizonte o sol
Tão longe!
Nega-me o calor
E eu na noite aqui estou a olhar
O mar, pois a lua ainda vem mergulhar.

Lili Ribeiro
23/01/08






sexta-feira, 21 de dezembro de 2007


As Evas

Hoje me sinto um pouco Eva
Despida de tudo
Dos preconceitos, das virtudes,
Um tanto perdida!
Um paraíso, um manancial e rochas.
As folhas, pra quê?
Não sei por onde ele anda.
O tal, Adão.
Que papel ele tem nessa história?
Qual é o lugar que ele ocupa?
Sinto-me nua e vestida.
Nua de esperança no ser humano
Vestida de medo deles.
Arrastando-me pelo jardim
E encolhendo a mão, pra não colher o fruto.
Que ele me oferece.
Beijo as pedras para não tocá-lo.
Salivando a sede de amar
Bebendo o néctar amargo em taça de ouro branco
O veneno oferecido aos anjos
Mas onde está ele para tirar-me a taça?
Antes fingira para não ver o mensageiro
E ocultou-se atrás dos montes
E olha de longe a toca do lobo
Que o afugenta.
E eu Eva, paro, olho e vejo.
Tudo é só um deserto.
Coberto por um negro céu.
Prenúncio de uma tempestade
Com chuvas fortes e ventania.
Pra levar as folhas secas das árvores.
Que aqui outrora viviam.
Quantas de nós, pobres Evas perdidas.
Por eles esquecidas.
Evas, Cains, Abéis, todos presos na torre de Babel.
Num soneto angelical, pedimos a Deus.
Que nos mande um tempo novo,
Que leve daqui o lobo.
E faça acontecer em dobro.
A paz dos édens esquecidos.
Por eles que são maridos autônomos e livres.
Por tantos pássaros admirados!-
Deixando pelos cantos, as tantas Evas.
Sofridas e caladas.
Por ele a escolhida e rejeitada.
As Evas nuas ainda hoje.
A mulher despida,
A escolhida e ignorada.
Lili Ribeiro

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007



Alagados

Alagados, moradores beira rios.
Todos sonham com o dia
Que não precisarão ficar ali
Pedras, porcos e ratos, entram casa adentro.
E ela sobe aos poucos, ou bem depressa.
Disso depende o tempo e o volume das águas.
Sempre!
O céu cinzento traz novo desalento
A essa gente que vê suas vidas transformadas num momento
Parece absurdo, mas uma tempestade vem e outra também.
Não há invento nem tempo
Que apresente algo novo a esse povo
Que sofre as amarguras e os desalentos
De perder seus bens e seus entes
Que antes eram
Gente!
E hoje, muitos deles, já não têm nem mais identidade.
Um povo que supera a cada dia
Suas mazelas, num desespero inerente.
E a busca constante de sobreviver aos ataques
Que a vida os obriga a enfrentar
A cada dia,
Que se passa as margens dos rios, e da sociedade.
Mais uma eleição vem e com ela é servida mais uma porção de ilusão
De não mais passar fome e nem sofrer com tantas doenças
Inocentes, acreditam no novo tempo.
E entregam a sua única força ao mais vil vilão.
Seu voto inocente, até mesmo,
Por alguns dentes.
Mas é somente por poucos dias e logo a esperança se vai.
Nas novas torrentes que os assombra novamente.
Nada muda, mais um político se elege.
E nada de novo realmente acontece.

Lili Ribeiro