domingo, 30 de dezembro de 2007




A Vida em Preto e Branco

Todo dia acontece sempre igual: não tem magia, não tem sonhos, apenas o amanhecer e um dia inteiro pra sofrer, chorar, chorar e calar.
De um lado a outro, pedindo, andando, sentando, levantando e chorando. - Não. Hoje não. Não tenho!
E um outro, nem resposta. Desviam seus olhos e atravessam a rua, mas lá também tem outro. Desviam-se, passam bem longe.
De algum lugar alguém os observa com olhos de ambição, tomando deles o que não conseguiram:- Pega essa criança, vai pra outra esquina. A resposta é vazia:- Mas lá já estive e nada consegui! E novamente a ordem:- Volta, você tem que conseguir! Com uma camiseta furada e chinelos gastos, arrasta uma criança despenteada pela mão. Mão da mãe que mora nas ruas e não pode dar-lhe nem o pão.
“Mãe e filhas são conduzidas por um inescrupuloso homem que as leva de um lado a outro e ao findar o dia, tira quase tudo do quase nada que elas ganharam”.
Mais uma vez a noite chega. Por companhia, apenas seus anêmicos vizinhos, que juntos moram sozinhos a margem da vida. Dormem ao relento fazendo dos jornais seus lençóis; embriagados, até os pequenos. E a cola é pouca pra tantos que a cheiram, embriagam seus cérebros pra não sentir fome nem o frio que os consome.
Pra não dizer que tudo é tristeza, pode-se acordar mais cedo ou não dormir, pra ver a aurora surgir. Trazendo a cada dia um espetáculo novo quase sempre carminado nas ruas mortas das grandes cidades.
Mais um dia começa, e com ele começa também a corrida da fome e a luta pelo ópio pra entorpecer a mente e morrer lentamente.
A única vantagem que eles têm é ver um pôr- do- sol diferente a cada entardecer e o raiar de um novo dia, contemplado assim o amanhecer, sempre pela aurora que os visita.
Mas, de que adianta?
Eles não sabem fazer poesia!

Lili Ribeiro

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007


As Evas

Hoje me sinto um pouco Eva
Despida de tudo
Dos preconceitos, das virtudes,
Um tanto perdida!
Um paraíso, um manancial e rochas.
As folhas, pra quê?
Não sei por onde ele anda.
O tal, Adão.
Que papel ele tem nessa história?
Qual é o lugar que ele ocupa?
Sinto-me nua e vestida.
Nua de esperança no ser humano
Vestida de medo deles.
Arrastando-me pelo jardim
E encolhendo a mão, pra não colher o fruto.
Que ele me oferece.
Beijo as pedras para não tocá-lo.
Salivando a sede de amar
Bebendo o néctar amargo em taça de ouro branco
O veneno oferecido aos anjos
Mas onde está ele para tirar-me a taça?
Antes fingira para não ver o mensageiro
E ocultou-se atrás dos montes
E olha de longe a toca do lobo
Que o afugenta.
E eu Eva, paro, olho e vejo.
Tudo é só um deserto.
Coberto por um negro céu.
Prenúncio de uma tempestade
Com chuvas fortes e ventania.
Pra levar as folhas secas das árvores.
Que aqui outrora viviam.
Quantas de nós, pobres Evas perdidas.
Por eles esquecidas.
Evas, Cains, Abéis, todos presos na torre de Babel.
Num soneto angelical, pedimos a Deus.
Que nos mande um tempo novo,
Que leve daqui o lobo.
E faça acontecer em dobro.
A paz dos édens esquecidos.
Por eles que são maridos autônomos e livres.
Por tantos pássaros admirados!-
Deixando pelos cantos, as tantas Evas.
Sofridas e caladas.
Por ele a escolhida e rejeitada.
As Evas nuas ainda hoje.
A mulher despida,
A escolhida e ignorada.
Lili Ribeiro

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007



Alagados

Alagados, moradores beira rios.
Todos sonham com o dia
Que não precisarão ficar ali
Pedras, porcos e ratos, entram casa adentro.
E ela sobe aos poucos, ou bem depressa.
Disso depende o tempo e o volume das águas.
Sempre!
O céu cinzento traz novo desalento
A essa gente que vê suas vidas transformadas num momento
Parece absurdo, mas uma tempestade vem e outra também.
Não há invento nem tempo
Que apresente algo novo a esse povo
Que sofre as amarguras e os desalentos
De perder seus bens e seus entes
Que antes eram
Gente!
E hoje, muitos deles, já não têm nem mais identidade.
Um povo que supera a cada dia
Suas mazelas, num desespero inerente.
E a busca constante de sobreviver aos ataques
Que a vida os obriga a enfrentar
A cada dia,
Que se passa as margens dos rios, e da sociedade.
Mais uma eleição vem e com ela é servida mais uma porção de ilusão
De não mais passar fome e nem sofrer com tantas doenças
Inocentes, acreditam no novo tempo.
E entregam a sua única força ao mais vil vilão.
Seu voto inocente, até mesmo,
Por alguns dentes.
Mas é somente por poucos dias e logo a esperança se vai.
Nas novas torrentes que os assombra novamente.
Nada muda, mais um político se elege.
E nada de novo realmente acontece.

Lili Ribeiro


Os fedaputas

Estava chegando a minha casa por volta das vinte e duas horas, a rua estava, como sempre, bem movimentada e eu muito apressada.
Enquanto procurava pela chave em minha bolsa observava com certa atenção a três crianças bem carentes que moram, praticamente, na rua. Eram dois meninos e uma menina, ela parecia ainda não ter completado os quatro anos de idade, os meninos aparentavam ter de seis a sete anos aproximadamente. Eles arrastavam a menina pela rua, enquanto ela chorava e falava:- Fedaputa, me solta! E quanto mais eles a arrastavam, mais ela reclamava. Não pude conter-me e comovida, tentei um diálogo com eles e disse:- Faz isso com ela não, ela é tão linda! Nesse mesmo instante eles a soltaram, mas ela insistiu chorando alto e gritando:- Fedaputa, fedaputa!
Foi ai que me aproximei e disse a ela:- Fala assim não, você é tão bonita! Ela gritava comigo e dizia:- Mas você é feia, você é feia! E eu disse:- Eu sei que sou feia, mas e daí? Você é linda, muito bonita mesmo!
Ainda com seu rostinho coberto por lágrimas ela sorriu meio sem jeito e perguntou:- Eu sou? E continuei falando:- Claro que é. Você é muito bonita mesmo! Ela respirou fundo. Fez um olhar de menina dengosa e disse:- É eu sou bonita! Os meninos continuavam ali parados olhando o desfecho da história e vendo-a sorrir, sorriram dócilmente. Ela saiu meio faceira falando baixinho:- Eu sou bonita! Eu sou bonita! E eles foram embora com ela já bem mais calmos. Senti meu coração um pouco mais leve, mas deu um nó na garganta e muita vontade de levá-la pra casa. Já havia esquecido a tal pressa e fiquei a olhar a rua. Lembrei de uma menina que há alguns anos passados estava sentada na porta de um bar com suas duas irmãs, já se aproximava da meia noite e era natal.
Seus olhos perdiam-se no céu olhando os fogos, pois eles eram de graça e também era apenas o que elas tinham de natal. Hoje a mais velha delas trabalha numa casa de prostituição já faz algum tempo. Á ceia de natal que levei pra elas naquela noite, não foi o bastante, eu poderia ter feito mais e não fiz. Neste momento estou pensando em fazer alguma coisa pela menina linda de hoje, mas ainda não sei o que farei. De uma coisa tenho certeza, não posso esperar muito. Elas crescem depressa demais e sempre haverá uma vaga nessas casas e pessoas dispostas a pagar barato por serviços tão difíceis.

“E pensar que sou obrigada a votar nesses fedaputas.”

Lili ribeiro


Hora de partir

Não suporto mais ferir-te
Nem a ti nem a mim
Essa indecisão
Não saber se irás ou não.

É sua, é minha a
Imprudência.
Pobre de nós que sabemos,
E não queremos;
Tomar a decisão.

Vidas que não voltam
Paradas e perdidas.
Num conflito e inércia,
Pra não sofrer.

Adiamos a hora final.
Eis aí a questão,
Deixar-te ou não.
Por que sofrer por ti?

Sei
Que perder-te é ganhar-me
Para que eu me veja.
Pois não mais sou eu mesma.
Tu dizes que és, mas não és.

Triste é a espera da partida
A minha ou a sua
Não sei.
Já não somos nós.

Por que juntos, já não somos um.
E os dias passam, viram semanas.
Elas viram meses, e eles,
Viram anos

E nós aqui estamos ainda pensando.
Se iremos ou não
Sabemos que um dia diremos adeus

Um adeus que já foi dito antes,
Bem antes dos anos,
Que continuam se passando.

Lili Ribeiro

A Mais Pura Ilusão

A mais pura ilusão semeada ao chão.
Um chão socado, cansado e infértil.
Qual pedra no meio do oceano
Que dura permanece inerte,

Mas recebe a maresia fresca.
Que vem do mar.
Tal qual é o amor que tenho por ti
Que jorra frescor em brisas

Acariciando o seu coração
Com as mais macias mãos
Feito plumas ao vento
Pois tu não as vês nem as sente

Pobre de ti
Que ao acaso se derrama feito sombra em minha vida
Pois não o terei mais como coisa real ou irreal
Jamais voltarei a vê-lo como coisa alguma

Quanto mais merecedor do amor
Que farto te dou
Ignoras um sonho.
Imprudente criança

Ao acordares não estarei mais em seu mundo.
E enlutado chorarás
A perda irreparável do ser que te ama
E soma-te a tudo que é belo

Mas hoje chegou a tua hora final
Tarde demais
As pedras não amam
Não sofrem não tem sede nem fome

Afogadas ao mar
Aniquiladas ao sol
Não me importo em que estado estarás
Dentro em pouco
Sinto,

Me liberto de ti.

Lili Ribeiro

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007





Negra Forte

Numa noite fria de inverno cortante
Em uma tapera deserta.
Com ventos de todos os lados
Invadindo todas as frestas, o frio cortava.
A pele negra da jovem solitária
Que tirou a talha do chão e a colocou sobre a mesa
Encheu a caneca de barro com água e bebeu.
Seu corpo franzino estava frágil.
Depois de mais um dia de muito trabalho
Sentou na cadeira de palha e sonhou
Com o dia que não mais seria preciso tanto trabalhar
Com o dia que seu trabalho enfim seria reconhecido
E não mais explorado por pessoas
Que a tinham como objeto de uso pessoal.
A noite era fria,
Mas era sua, para o seu descanso e repouso.
Até que surgisse o sol para acordá-la,
Pra ordenhar as vacas
E levar o leite fresco para sustentar os filhos de seu senhor e sua Ama;
Para que crescessem sadios e imponentes
E fossem também, Senhores de seus escravos na terra de um povo;
Que ainda sonhava com a liberdade!

Lili Ribeiro
31/05/07

domingo, 2 de dezembro de 2007




FUGA

Depois da chuva, o sol desponta no horizonte.
A calmaria de uma tímida manhã
É interrompida por tiros ensurdecedores,
Disparados por alguns homens
De dentro de um carro,
Que passou em alta velocidade.
Pânico a seguir de fuga;
Encostando-me em um muro, ando apressada,
Tentando não ser vista.
De repente a calçada parece menor
Sinto-me espremida pelos muros
Ando rápido sem olhar para trás;
A rua se fecha em túnel.
Parece não haver saída
Olhando para o alto tento ver o céu,
Mas que céu? Não há céu!
Vejo apenas uma cavidade escura
Coberta por um manto negro
E sem opção me envolvo neste manto
Tentado me esconder
Mas me esconder de que?
Se nem os tiros ouço mais.
E como se mágica fosse
O manto negro se abre
E me vejo em meio a um fio de claridade
Num instante um pesadelo
Que em sonho se transforma
E parece real.
Uma nova terra surge
Uma densa floresta em meio á montanha,
Posso ver e sentir o cheiro da terra úmida
Pela chuva mansa que cai suavemente;
Levo meu olhar ao longe
Mas pouco posso ver
Pois as árvores
Começam a se esconder
Na bruma que se aproxima.
Ando nas trilhas encontradas
Que não me levam a lugar algum
E cansada me ponho a reclamar.
Depois de muito andar cheguei a uma casa
Que mais parecia ter saído
De um conto de fadas
Tão acolhedora e quente
Com móveis antigos e mesa de cristal
E ando por toda casa, procurando à saída.
E ainda sem paciência
Continuo a reclamar.
Uma voz mansa me chama;
Parecendo fada de tão bonita a senhora
Com um gesto feito
Com indicador na frente da boca
Pede para eu me calar
Oferece-me bolinhos de arroz
E caminha ao meu lado em silêncio.
Já não reclamo nem murmuro,
Apenas ouço o silêncio daquele lugar;
E cansada de procurar a saída
Eis que surge um senhor
De barba e cabelos brancos;
E mais calma posso admirar
O sorriso doce de um ancião,
Que calmamente estende-me a mão,
Anunciando à saída.
E logo vejo a minha frente
Uma porta frágil
Com vidraças limpas
Generosamente aberta.
A bruma continua
Mas já posso ver à saída
E num sonho perfumado
Subo a montanha;
Do alto,
Avisto o mar, a cidade ao longe,
Ainda sigo a trilha,
Agora coberta
Por pétalas de rosas vermelhas
Ainda não está bem claro
Não vejo o mar tão azul
Mas no horizonte já está brotando o sol
E logo um arco-íris começa a surgir.

Lili Ribeiro